quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Como Funciona La Maestra. Bom ano, com boas leituras!


Setembro é tempo de abrir portas. As crianças estão de volta à escola. Para algumas não é um regresso, é apenas o começo. Para todas há um denominador comum: os professores.

Logo na apresentação, ficamos a saber que a professora tem uma parte da frente, que é a que quase sempre se vê, e uma parte de trás, que se vê quando ela se volta.

Como Funciona La Maestra, com texto de Susanna Mattiangeli e ilustrações de Chiara Carrer, é uma belissíma e divertida homenagem à figura do professor. Em jeito de RX, a professora vai sendo dissecada com irresistiveis doses de criatividade e de humor.

Las maestras pueden tener colores y diseños muy distintos. Pueden ser oscuras, claras, enruladas, lisas, a lunares, floreadas, espiradas, a cuadros y de estampados multicolores. Sobre la maestra a rayas se escribe, sobre la maestra cuadriculada se hacen las cuentas.

Há professoras altas, baixas, gordas, magras, de várias cores e feitios... A diversidade reina na proporção da imagem que as crianças podem ter delas. Ainda assim, os mais pequenos ficam a saber que uma professora pequena não é apenas metade de uma professora, assim como uma muito grande não vale por duas.


Dentro da professora estão os números, as tabuadas, os rios, as montanhas, o relógio, os cinco sentidos, o homem primitivo e muitas outras coisas que, passado pouco tempo, também vão para dentro dos meninos.
Uma imperdível aula de anatomia que não se fica só pelo estudo das características físicas e onde o género masculino não é esquecido. Porque, às vezes, a professora é um homem. 


Maîtresse, teacher, morá...  o elenco da palavra em várias línguas não foi esquecido. Mas não se iludam porque, entre elas, falam o idioma das professoras, que é como o idioma dos adultos, mas mais difícil. Com as crianças falam se-pa-ran-do bem as sí-la-bas, em voz baixa ou GRITANDO.


A mestria do trabalho de Chiara Carrer não surpreende quem a conhece. Desenho, colagem, papéis e texturas diferentes contribuem para um álbum deliciosamente imaginativo que resulta num retrato do professor com que os mais pequenos facilmente se identificam. E que, carinhosamente, transporta o leitor adulto para os bancos de escola. Com a certeza de que mesmo quando o tempo passa e a nossa professora já é a professora de outros, se a voltamos a encontrar sabemos sempre que é ela! Ou que quando é necessário relembrar um poema ou uma velha história ouvida na sala de aula, basta procurar bem e encontramos facilmente o nosso lugar e o de todos os outros, tal como a professora nos tinha colocado!
Este é o livro da semana na Casa dos Hipopómatos. Visitem-nos, venham vê-lo! Bom ano & boas leituras!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A Bola Amarela. Jogamos?


Há livros de outro planeta! Neste caso, do Planeta Tangerina. Em 2014, a propósito de Daqui Ninguém Passa, escrevemos: É a história de uma revolução, mas também a revolução do próprio livro. É uma brincadeira magnífica, hilariantemente conseguida, que nos faz querer participar! 



Hoje, falamos de A Bola Amarela e continuamos a dizer que o livro se reinventa todos os dias. Com texto de Daniel Fehr e ilustrações de Bernardo Carvalho, o mais recente livro da colecção De Cantos Redondos do Planeta Tangerina é um livro-jogo que, com elevadas doses de diversão e originalidade, leva o leitor a calcorrear 37 páginas para trás e para a frente... para a frente e para trás. As crianças, e não só, deleitam-se com esta aventura! 


Um livro é um lugar. Com dentro e fora, esquerda e direita, perto e longe, princípio e fim, diz a editora a propósito desta colecção. Aqui, o lugar começa por ser um campo de ténis e a acção desencadeia-se quando Luísa e Luís decidem fazer um jogo amigável e, imaginem, a bola acaba por escapulir-se na dobra entre as páginas! 



Aos dois amigos não resta alternativa que não seja procurá-la. E os leitores? Pois, esses têm de segui-los, iniciando uma aventura que os levará a percorrer os mais diversificados e encantadores cenários. Mas não se enganem, não é fácil e a coisa exige alguma forma física. Aqui, não chega virar a página. A numeração não existe para ser seguida ordeiramente. Aqui, é preciso saltitar entre páginas, para trás e para a frente.


De pista em pista, acompanhamos os pequenos no rasto da bola. Atravessamos uma festa, onde todos conhecemos alguns dos convidados, uma savana, um campo com burros, páginas digitais que nos trazem à memória  alguns videojogos e muito mais. Tudo, pela mão de Bernardo Carvalho que, com a qualidade a que já nos habituou, se socorre do desenho e da fotografia, num registo pautado pelo humor.


Uma louca viagem com passagem pelo céu e direito a conhecer um deus muito especial! 
Ufa! Não!! Não descansem porque não podem perder de vista os petizes! E não se deixem enganar, bolas amarelas há muitas...


Livros em papel, interativos e digitais? Nem mais.
Subjacente à colecção, está o conceito de interactividade. Genialmente conseguida, os leitores mergulham literalmente no livro, esgueirando-se pelas dobras ou saltando pelas páginas até conseguirem enxergar a bola amarela. Mas, não se ficam por aí. É um desafio empolgante e irresistível, com um final/recomeço hilariante, feito na companhia dos dois pequenos protagonistas. Ela desfrutando, tal como os leitores, de cada página, ele resmungando com tudo e todos. Até com Deus! Até com os autores do livro! DEVEM ESTAR A GOZAR!!



Há planetas assim. Lugares onde os leitores participam, jogam, brincam, aventuram-se... dentro do livro! Pssst, os miúdos já estão a caminho do campo de ténis? Não?? DEVEM ESTAR A GOZAR!!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Gaston


                                   Fifi,      Xuxu,     Oh-lá-lá,     Gaston 



São  os filhos da Srª Caniche, uma mãe vaidosa e orgulhosa dos seus doces e encantadores cachorrinhos. Quatro amores perfeitos, pelo menos, à primeira vista. Porque a um segundo olhar, a que o próprio texto convida o leitor - Vamos vê-los outra vez?-  é notório que não são todos iguais. Gaston é diferente, não se parece com os irmãos. E não são só as semelhanças físicas que não existem. 



É sobretudo nas aprendizagens que se diferenciam. Gaston é o mais esforçado, o que mais se aplica, mas também o mais trapalhão. Não perece talhado para a etiqueta e boas maneiras, que com tanta naturalidade se praticam no seio da família.



De forma hilariante e divertida, texto e imagem mostram, algumas vezes, realidades distintas. Não menos divertidas são as subtilezas com que o leitor é brindado. Que Gaston não é um caniche salta à evidência. Mas, enquanto as ilustrações atestam a diferença de raça, até meio do livro o texto nunca a assume explicitamente.
Três já eram do tamanho de chávenas de chá. O quarto, entretanto, crescia e crescia. Parecia já um autêntico... bule de chá.


É preciso esperar pela primavera e acompanhar a Srª Caniche  ao parque com os seus pequenotes para que tudo se clarifique. O encontro, no mínimo estranho, com a família Buldogue, onde Antoinette, uma pequena caniche, parece carta fora do baralho, revela o óbvio. Às mães e aos leitores. Os cachorros tinham sido trocados à nascença.


Não admira que as mães tentassem logo ali reparar o erro,  dando o seu a seu dono. Gaston voltou para casa com a sua família de sangue, os Buldogues, e Antoinette regressou com a mãe biológica, a Srª Caniche, e as irmãs. Mas o que se seguiu foi...desastroso! Antoinette não se ajustava  à vida esmerada e cor-de rosa das irmãs. Gaston, por seu lado, não apreciava as confusões e a chinfrineira que pautavam o dia a dia dos irmãos. E também não morria de amores pelo castanho!


Rapidamente, o equívoco foi desfeito e ambos os cachorros voltaram às "famílias de adopção", onde eram felizes. Continuaram a encontrar-se e a partilhar experiências. Os buldogues ensinaram os caniches a ser menos queridos e estes ensinaram os buldogues a ser menos brutos. Gaston e Antoinette cresceram... apaixonados. Casaram e ensinaram os filhos a ser o que bem quisessem.


De forma alegre e empolgante, a história mostra-nos que numa família, mais do que os laços de sangue, o importante é o amor. Gaston encanta os leitores graúdos e faz as delícias dos mais pequenos, tornando-se uma excelente companhia para férias.



Com texto de Kelly Dipucchio e ilustrações do premiado Christian Robinson, Gaston foi recentemente trazido para Portugal pela Orfeu Negro. Há cerca de dois anos, tínhamos tido a sorte de nos cruzar com ele em Berlim, na fantástica livraria Mundo Azul. Não nos separámos mais deste livro delicioso, onde palavras e imagens se casam num grafismo charmoso e irresistivelmente divertido. 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O Convidador de Pirilampos ou a arte de cientistar


Nas memórias  com sabor a infância guardamos as muitas noites de pirilampos vividas num tempo em que fomos meninos. Noites escuras e mágicas já partilhadas com os meninos de hoje. Quando, há uns anos, a Bruaá nos presenteou com o fantástico livro de Bruno Munari, Na noite escura, festejámos lá fora olhando as pequenas multidões de luzinhas que se passeavam no escuro, indiferentes à nossa presença.  


Foi o que voltámos a fazer quando nos chegou às mãos O Convidador de Pirilampos, com texto de  Ondjaki, ilustrações de António Jorge Gonçalves e editado pela Caminho.


Desta vez, na companhia de um pequeno rapaz e do seu avô, profundos conhecedores da Floresta Grande, onde brilham os pirilampos cintilantes. Antes de se embrenhar nela e de ser tentado a seguir no encalço das luminosas criaturas, o leitor fica logo a saber que nem todos os pirilampos têm brilho. Que existem pirilampos apagados!  E que são apagados porque não devem ser encontrados. Conhecidos como pirivelhos, são os mais sábios de todos. 


Mas, o leitor necessitará de atravessar a Floresta e toda a história para ficar a saber mais acerca destes pirivelhos e descobrir a razão porque não devem ser encontrados. Para isso, conta com a ajuda do rapaz inventor que carrega na mochila os objectos inventados. Cada um mais louco que o outro.


Um aumentador de caminhos, um unóculo e um convidador de pirilampos são alguns dos objectos utilizados para "cientistar" os seres luminosos. Os resultados, esses, acabam sempre partilhados com um avô paciente e com cheiro a laranja.


Um livro que, aqui e além, nos lembra o universo de Jimmy Liao. Histórias vividas num qualquer lugar do mundo e  povoadas de personagens sem nome que poderiam ser qualquer um de nós. Inconfundíveis, as ilustrações de António Jorge Gonçalves, vencedor do prémio Nacional de Ilustração 2013 com o livro da mesma dupla Uma Escuridão Bonita, voltam a um registo de silhuetas, sombras e jogo de luzes, com predominância de uma paleta de cores preta e azul. Ou não fosse esta mais uma história sem luz eléctrica.


Ondjakianos convictos, ficámos fãs deste pequeno inventor que, cientistando com paixão e afinco, acaba descobrindo o código da linguagem dos pirilampos. Um livro onde a poesia se passeia a cada página e onde as histórias são tantas quantos os contadores com que nos conseguirmos cruzar. Edison é, porém, o nosso contador de eleição.


Junho é o mês, por excelência, dos pirilampos. Em férias ou não, agarrem nas lanternas, nos miúdos, nos inventos, se fôr caso disso, e entrem noite dentro. Cientistem, cientistem!

sábado, 17 de junho de 2017

Clube Mediterrâneo, doze fotogramas e uma devoração


Apresentação do livro Clube Mediterrâneo - doze fotogramas e uma devoração, do escritor João Pedro Mésseder, com ilustrações de Ana Biscaia e design de Joana Monteiro. Um livro sobre refugiados, sobre o drama das vidas de quem, fugindo da guerra e de todas as adversidades, chega tantas vezes ao inferno. O livro será apresentado pela escritora Rita Taborda Duarte. 
Hoje, sábado, às 18h, marcamos encontro nos Hipopómatos na Lua, Biblioteca Municipal de Sintra.



terça-feira, 13 de junho de 2017

Gatos, piolhos, ratos, girafas, crocodilos, pirilampos e muitos mais... continuam a querer ir de férias com as crianças e os pais!



Depois da bicharada toda que elencámos aqui, é de animais que continuamos a falar. E  voltamos a dizer que, quer estejam a caminho da Feira do Livro ou já a preparar as férias, há livros onde não podem deixar de entrar.
É o caso da maravilhosa cidade que Joan Negrescolor, autor do premiado livro HÁ Classes Sociais, editado pela Orfeu Negro, nos convida a visitar. Com a chancela da mesma editora,  A Cidade dos Animais é um hino à natureza que deslumbra os visitantes com uma luminosa e alegre paleta de cores. 



No espaço, que outrora parece ter sido ocupado por habitantes diferentes e onde ainda podemos encontrar objectos perdidos, proliferam elementos da natureza e uma gigantesca diversidade de seres. Deixem-se guiar por Nina, a menina que conhece bem os trilhos e os cheiros desta floresta, e passeiem-se com as crianças.  Apesar de se tratar do seu lugar secreto, está disposta a partilhá-lo com os leitores.


O reencontro com os amigos, sempre que volta à cidade selvagem, cheia de cor e luz, é uma festa marcada por um ritual: a leitura de histórias. Nina não faz distinções porque sabe que cada um tem o seu gosto bem pessoal. Se é verdade que os macacos preferem viagens à lua, aventuras espaciais e seres extraordinários, já a serpente elege os poemas sobre o mar, os pescadores e as tempestades. Por seu turno, os pinguins...



Mas, ATENÇÃO,  há uma história que reúne unanimidade! Entrem e descubram!


Pela mão da Kalandraka, chega-nos mais um livro de Leo Lionni, o que é sempre um luxo! As histórias de Lionni são intemporais e continuam a apaixonar miúdos e graúdos. Para isso muito  contribuem a ternura em que estão envoltas e a delicadeza e mestria com que a mensagem que as acompanha se faz anunciar junto do leitor. Frederico, O Sonho de Mateus ou o eterno Pequeno Azul e Pequeno Amarelo são apenas alguns exemplos.


Num registo algo diferente do habitual, com colagens de cores garridas e divertidas, Alex e o Ratinho de Corda gira à volta dos laços que se estabelecem entre dois amigos improváveis, Alex e Willie. O primeiro é um pequeno rato que, sempre que empreende uma incursão pela casa onde escolheu alojar-se em busca de uma qualquer migalha, se vê em apuros no meio dos usuais gritos de "Socorro! Um rato!" O segundo, é um rato de corda e o brinquedo preferido da menina da casa.



Willie é detentor de todos os mimos e atenções, partilha a almofada branca e fofa da dona e diz-se amado por todos. Mas só anda em círculos e quando lhe dão corda. Alex até poderia correr por todos os cantos da casa, mas a vassoura é o objecto que está sempre mais próximo...Vive com a tristeza de saber que ninguém gosta dele. E à noite, na escuridão do seu esconderijo, não consegue evitar a inveja que sente dos mimos dados ao seu único amigo, o rato de corda...



Das muitas horas de conversa e partilha surge a revelação da existência de um lagarto mágico que tudo consegue transformar. Alex, cansado de ser o mal amado, não pensa duas vezes. Mas, tal como na vida, nas histórias também há reviravoltas... Uma deliciosa história sobre amizade. A que se constrói e prevalece independentemente de todas as diferenças. 


É o cúmulo da bicharada! No livro da Rita Taborda Duarte há de tudo : elefantigas, girafeusgirafus, gigopulgões ou nanoleias... 
Estes são, apenas, alguns dos animais, ou melhor, animenos, que são bichos tal qual os demais mas tendo bastante menos, que se passeiam neste criativo e delicioso "manual de bichos e bichissímos". As não menos criativas ilustrações de Pedro Proença tornam o livro, editado pela Caminho, um objecto irresistível para os mais pequenos.


Apresentados em verso, os Animais e Animemos e outros bichos mais pequenos (sim, podem ser minusculíssimos) são divertidos, hilariantes e únicos, pondo a criançada a gargalhar e a pedir mais e mais! 


Conhecer esta espécie de piolhos que vivem nos nossos miolos ou a macacança que pode rodopiar dentro de qualquer pessoa é algo que apaixona os leitores mais pequenos que, não só repetem os nomes vezes sem conta, como decidem,  eles próprios, dar largas à imaginação e inventar outras espécies de animenos.


Macacança? Trata-se de uma espécie especial de macaco, mesmo muito pequenino, mesclado de criança que, entre outras coisas, pode  desarrumar pensamentos e virar o mundo do avesso. Claro que há sempre aqueles que, tendo muito siso, vivem sem bicharada a mordiscar-lhes o juízo. Que tédio, dizemos nós! Soltem lá a macacança que há em vocês e, para além dos ANIMAIS, façam-se acompanhar também destes fantásticos ANIMENOS em férias!