terça-feira, 21 de novembro de 2017

The Lost House. Leituras de Fora


Quando entramos na casa deste avô, não queremos sair! Esta é uma casa maravilhosa, cheia de cor, de encantos, recantos e mistérios! Cada assoalhada tem uma cor diferente e um incalculável número de objectos, cada um mais peculiar do que o outro!


O avô prometeu levar os netos ao parque, mas antes necessita da sua ajuda para encontrar algumas coisas indispensáveis para sair de casa. As meias, os sapatos, os dentes, os óculos, o chapéu de chuva, a sacola, o laço, o relógio de bolso, as chaves, o chapéu e o telemóvel.


A busca inicia-se e o leitor é convidado a participar num jogo hilariante. Enquanto o avô lê tranquilamente o jornal, visitamos a sua casa na companhia das crianças. Começamos na sala de estar verde, onde o que se procura são as meias do avô. Escusado será dizer que as meias são verdes. Na cozinha vermelha, o desafio é encontrar os sapatos da mesma cor. Seguem-se a casa de banho amarela, a sala de desenho cor de rosa, o hall de entrada azul, o sótão castanho...


A riqueza dos detalhes é incomensurável e a vida do leitor não está facilitada neste seek and find book. A cada dupla página, ou melhor, em cada compartimento da maravilhosa casa, permanecemos por tempo indeterminado até encontrar os objectos, absolutamente camuflados nesta parafernália visual.
Um irresistível e delicioso quebra-cabeças que gostaríamos tanto de um dia ver por cá... 
The Lost House, da autoria de B.B. Cronín, é um livro fabuloso onde apetece morar. Muito tempo.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Cem Sementes que Voaram


Esperar por outro momento importante, é uma grande especialidade de todas as árvores.


Esta é a história de uma árvore que estava à espera. De esperanças. Esperava o dia mais que perfeito, o dia certo, o dia tal! Por isso, deixou passar os dia frios. Os dias de chuva. Os dias incertos. Esperou pelo calor e finalmente viu as suas sementes soltarem-se. Voarem!


O momento não podia ser mais oportuno. Nunca se terá falado tanto da nossa floresta, nunca se terá prestado tanta atenção às nossas árvores como agora. A tragédia que devastou o país, pintando quilómetros e quilómetros de tonalidades verdes com tons negros e feios, reacendeu também inquietudes e preocupações. Delas, não ficaram arredadas as crianças. Falar-lhes do respeito e da sensibilidade que a mãe natureza espera de nós, é um imperativo.


Cem Sementes que Voaram, o livro agora editado pelo Planeta Tangerina, com texto de Isabel Minhós Martins e ilustrações de Yara Kono, é merecedor do nosso aplauso. 


No rasto das cem sementes lançadas pelo sábio pinheiro, as autoras conduzem-nos num percurso onde se somam imprevistos (serão?), mas onde a palavra de ordem é a subtracção. Das 100, 10 acabaram numa autoestrada, 20 mergulharam num rio e foram comidas pelos peixes, 10 caíram em solo rochoso, 25 foram bicadas pelos pássaros... umas desapareceram no papo de um melro guloso, outras foram comidas por um trinca-pinhões, outras houve que aterraram na barriga de um esquilo ou que foram levadas por um menino, algumas até serviram de ninho a dois insectos apaixonados...


Página a página, vamos fazendo contas às que restam. Alimentando a esperança de que as páginas seguintes sejam apenas portadoras de boas notícias. Mas não é isso que acontece. Uma certa angústia apodera-se de nós, leitores. Pequenos e grandes. Porque este é um livro para todas as idades. O ritmo parece alucinante... Restará alguma? No rosto dos mais pequenos surgem riscos de apreensão, de tristeza...



Mas este é um livro com marca Planeta Tangerina. Logo, tudo pode acontecer. Até, imaginem, fazer uma pausa, um parênteses.  São as próprias autoras que o dizem:
(E agora sentamo-nos um pouco a chorar...
Porque, caramba, isto já começa a ser demasiado triste!)


A história poderia acabar mal? Sim, podia. À semelhança de algumas histórias da vida. Mas a natureza também nos ensina que nada se perde, tudo se transforma e as surpresas estão aí. A relembrar-nos que a grande especialidade das árvores é esperar por outro momento importante. Na esperança de que tudo corra bem. 
No final, encontramos algumas das sementes que germinaram a imaginação das autoras para fazer um livro que celebra a resistência das sementes e a inteligência das árvores e da natureza.
Um livro inteligente, acrescentamos nós, que celebra muito do que um livro pode ser. Seguramente, um dos livros do ano para os Hipopómatos.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Mais Um. Será?


E quando é que ele vai nascer? A pergunta é previsível sempre que os mais pequenos estão perante a evidência de se transformarem em irmãos mais velhos. A ansiedade, a excitação, a curiosidade e até alguns receios emergem de forma insistente e ritmada ao longo dos meses de espera.  Nunca mais! 


A chegada de um novo elemento à família é sempre uma temática interessante e rodeada de alguns cuidados para com os mais pequenos. Saber como irão reagir à partilha do seu mundo com o irmão ou irmã recém chegados é uma incógnita que começa com a espera e a gestão que dela fazem ao longo dos meses de gravidez da mãe.



Mais Um, da autoria da dupla já nossa conhecida Olalla González e Marc Taeger, que assinam a versão do conto Grão de Milho, também editada pela Kalandraka, é uma abordagem divertida, com um final hilariante. Com uma estrutura triplamente repetitiva e uma paleta de cores suave e apelativa, o livro tem os ingredientes necessários para garantir o sucesso junto dos mais pequenos.



O coelho protagonista desta história é o exemplo da mistura de sentimentos e emoções, tantas vezes experienciados pelos mais pequenos. Ao ver a mãe mais gorducha, o pequeno adivinha que a família vai crescer e a pergunta da praxe surge de imediato. A resposta da mãe - Vai nascer quando já não conseguir ver os meus pés - não parece satisfazer-lhe totalmente a curiosidade. Transbordando de entusiasmo e alegria, o pequeno coelho anuncia aos sete ventos que vai ter um irmão. Mas ao anúncio proferido perante cada um dos animais com que se vai cruzando, segue-se repetidamente a pergunta: Sabes quando vai nascer?


Dos simpáticos amigos, para quem, naturalmente, "a gordura" da senhora coelha não passara despercebida, as respostas chegam rimadas e em jeito solidário.
Às páginas destes diálogos, sucedem-se invariavelmente aquelas em que, a uma só cor, imagina as brincadeiras que poderá partilhar com o irmão. E a sequência completa-se sempre da mesma forma: com a pergunta à mãe sobre o crescimento da barriga, que não coincide com o ritmo por si desejado.
- Mamã, ainda vês os teus pés?


Num frenético vaivém, o coelho divide-se entre  as páginas onde se repetem perguntas e respostas que as crianças conseguem facilmente adivinhar. Mas, quando, finalmente, chega o tão esperado dia, a surpresa é de monta... Tanto para o pequeno coelho como para os pequenos leitores. Festejem!

E por falar em leitores mais pequenos, ERIC CARLE está de volta!


Há cerca de um ano, escrevemos aqui sobre dois clássicos de Eric Carle, Sonho de Neve e O Senhor Cavalo-Marinho, editados pela Kalandraka. Hoje, repetimos: E porque o Natal sem mestre Eric Carle não seria a mesma coisa, aí estão duas edições cartonadas e de cantos arredondados para encaixarem nas mãos mais pequenas! 


Queres brincar comigo? é uma reedição e surge, agora, em formato mais pequeno, cartonado e de cantos arredondados.
A conhecida história do pequeno rato que procura um amigo para brincar é um daqueles livros que os pequenos leitores  pedem vezes sem conta. O enigma da identidade de cada animal que vai surgindo e que só se revela a cada virar de página, faz com que as crianças entrem no jogo da adivinha e se surpreendam a elas próprias. O texto tem a assinatura de Xosé Ballesteros, que o concebeu expressamente para as ilustrações de Carle.


Da Cabeça até aos Pés é uma divertida forma de descoberta do próprio corpo e dos movimentos que com ele conseguimos (ou não) fazer. Como? Experimentem pôr as crianças a imitar os gestos de alguns animais, como a girafa ou o macaco.


Da cabeça até aos pés e ao som de muitas gargalhadas, ficarão a conhecer melhor algumas das partes do seu próprio corpo. E ainda têm acesso ao maravilhoso espectáculo de cor que só Eric Carle sabe proporcionar.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Muito Barulho por Nada



Os Hipopómatos convidam para a inauguração da exposição de Susa Monteiro, Muito Barulho por Nada - ilustrações à volta de Shakespeare.
Sábado, às 16h00 horas, na Casa dos Hipopómatos / Biblioteca Municipal de Sintra. 
Porque Shakespeare também é para meninos. Ficamos à vossa espera.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Triângulo


A chegada de mais um livro da dupla Jon Klassen/Mac Barnett é sempre motivo para festejar. Desta parceria frutuosa, temos, entre nós, Uma Aventura Debaixo da Terra, também editado pela Orfeu Negro. Destinado ao público mais pequeno, chega agora Triângulo.




Um dia, o triângulo, que vivia numa casa triangular, decidiu ir pregar uma valente partida ao quadrado. Para chegar a casa deste, o triângulo teve de atravessar uma floresta povoada de triângulos pequenos, médios e grandes.  Depois deles, o triângulo passou ainda pela parte da floresta em que as formas já não eram triângulos, eram formas sem nome, até chegar, finalmente, ao território dos quadrados. Grandes, médios, pequenos...



Conhecedor do pavor que o quadrado nutre por cobras, o triângulo chega a casa deste determinado a pregar-lhe um valente susto. E podemos garantir que a tarefa que se propunha foi coroada de êxito. 


Em Dezembro de 2013, escrevíamos aqui que Klassen era um dos autores que muito gostaríamos de ver traduzido entre nós. Quatro anos volvidos, graças à Orfeu Negro, são  já vários os livros conhecidos em Portugal. trilogia dos chapéus (Este Chapéu não é MeuQuero o meu Chapéu e Achámos um Chapéu),  O Escuro, Uma Aventura Debaixo da Terra
Enquanto ilustrador, Klassen é portador de um estilo inconfundível. Minimalistas, as suas ilustrações parecem conter apenas o essencial para nos encantar e deixar incondicionalmente à espera do próximo livro. A utilização de uma paleta de cores, onde predominam, em regra, os tons terra, sépia e negro é outra das suas características. Mas é, sobretudo, o humor desconcertante que quase sempre expressa nas suas ilustrações, que  encanta pequenos e grandes leitores.


Triângulo não foge à regra. À semelhança de outros livros desta dupla, como Uma Aventura Debaixo da Terra e Extra Yarn,  há uma notável cadência entre texto e imagens. Com uma estrutura repetitiva e invertida, ao texto aparentemente simples juntam-se os jogos de sombras, os planos, as formas... que ora são montanhas que apetece escalar, ora são, com pernas estreitas e olhos grandes, personagens hilariantes.


Não pensem que o triângulo ficou sem resposta. Passado o susto, o quadrado decidiu percorrer o caminho inverso, até casa do triângulo. Quadrados grandes, médios, pequenos... A vingança serve-se fria! E o quadrado acaba por descobrir que o triângulo tem pânico do escuro. Ou já saberia?
Triangulem, triangulem! A criançada vai adorar.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Paris. Up, Up and Away. Leituras de Fora


Paris. Up, Up and Away da autora francesa Hélène Druvert e editado pela Thames & Hudson, é o livro da semana na Casa dos Hipopómatos. 


Imaginem que um dia a Torre Eiffel se aborrece e, qual pássaro, decide sobrevoar Paris. 


Um livro delicado e imaginativo, onde os deliciosos recortes nos fazem parar nalguns dos muitos encantadores lugares desta cidade. Uma viagem maravilhosa para fazermos na companhia das crianças.


Paris?  Pode ser já aqui. Na Casa dos Hipopómatos. 

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Grandes Vidas Portuguesas.



A Marquesa de Alorna e Antónia Ferreira são as senhoras que se seguem na colecção Grandes Vidas Portuguesas, editada pelo Pato Lógico em parceria com a Imprensa Nacional-Casa da Moeda.




Das anteriores biografias falámos aqui, referindo que esta é uma fantástica forma de apresentar aos mais novos alguns vultos da nossa história. Mas nem por isso menos cativante para os mais velhos.



Marquesa de Alorna, Querida Leonor, com texto de Luísa V. de Paiva Boléo e magnificamente ilustrado por André Carrilho, é um relato intenso e apaixonante da vida de uma extraordinária mulher, que encontrou nos livros e na cultura a fuga ao cativeiro que ainda menina lhe foi imposto.


Foram muitos os livros que D. Leonor leu nos dezoito anos de cativeiro: " Fui lendo tudo quanto achei e pude adquirir por um folheto que comprei, o qual tinha o título Bibliothèque d'un homme de gout, cheguei a adquirir 600 volumes meus, quase todos cheios de notas para meu estudo e instrução."
Verdadeira patrona das artes, Leonor, ou se preferirem, Alcipe, nome com que assinava a sua poesia, viveu uma vida muito para lá do seu tempo, o século XVIII.


A história de Antónia Ferreira, A Desenhadora de Paisagens é escrita por João Paulo Cotrim e ilustrada por Pedro Lourenço. Num mundo ao tempo dominado apenas por homens, a determinação da mulher que ainda hoje conhecemos por Ferreirinha garantiu-lhe um lugar na História.


Com uma imagem indissociável da do vinho do porto, aquela a quem chamavam a mãe dos pobres conduziu os negócios da família de forma exemplar, elevando-os a um patamar vedado à grande maioria dos homens.


Dona Antónia, a Ferreirinha, tinha uma fortuna colossal: as suas vinhas produziam 1500 pipas de vinho. em armazém repousavam mais 15 mil, centenas de acções em empresas de cá e do mundo, casas e palácios no Porto e em lisboa, armazéns enormes e o que mais tivesse jeito de ser sólido. E tinha, sobretudo, mais de 20 grandes quintas, que foi fazendo crescer comprando as pequenas da vizinhança. Com ela, os mapas não ficavam quietos. Contas feitas, a família herdou um património de perto de seis milhões de mil réis, muitos zeros que significam a possibilidade de fazer mundos e fundos.


A vida não deixou de lhe destinar alguns revezes, mas  isso não a impediu de se tornar dona e senhora do seu mundo.
Fãs destas Grandes Vidas, vamos já perguntando: próximos?

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Imagine a Night


Imagine a Night, com texto de Sarah L. Thomson e ilustrações de Rob Gonsalves é o livro da semana na Casa dos Hipopómatos. 

imagine a night...
...when the space between words
becomes like the space
between trees:
wide enough
to wander in.


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

FRIDA



A beleza mora logo na capa. Ninguém resiste a tocar o tecido acetinado de que é feita, a passar os dedos pelas cores fortes, a sentir as flores, o rosto... O nome também está lá. Mas ainda que não estivesse, saberíamos sempre que este é um livro sobre Frida Kahlo.


Abrir o livro é como entrar num museu para ver uma exposição sobre a vida e a obra da pintora.  O visitante percorre as páginas de mão dada com o sofrimento e a dor de Kahlo, do mesmo modo que respira a beleza e as cores com que pintou a vida que a escolheu.


A poesia do texto de Sébastien Perez é coadjuvada por frases e reflexões da própria Frida, recolhidas do seu diário e da correspondência particular. As magistrais ilustrações de Benjamin Lacombe recriam alguns dos quadros mais conhecidos da pintora mexicana, deleitando-nos os olhos, demoradamente, a cada página. Mais do que a linha impressionantemente fiel com que reinterpreta algumas dessas telas, o trabalho de Lacombe surpreende pelos elementos que reúne e que com uma unicidade ímpar nos transportam para o universo de Kahlo. Como se todos e cada um sempre lá tivessem estado. Tudo somado, ao leitor visitante surge a convicção de que este é um objecto feito, não a quatro, mas a seis mãos.


São nove os temas escolhidos para alicerçar o universo "fridiano".  O acidente, a medicina, a terra, a fauna, o amor, a morte, a maternidade, a coluna partida e a posteridade. A escolha deve-se, no entender dos autores, ao facto de serem estes os temas que constituem a coluna vertebral da obra e da vida da pintora. A ordem com que surgem não é aleatória, deixando antever a cronologia de alguns dos acontecimentos mais marcantes que viveu. Também o número nove não é fruto do acaso,  mas sim da simbologia de que se reveste na cultura asteca, tão cara a Frida.


Com um fabuloso trabalho de recortes, cada tema está estruturado em blocos de três páginas que nos permitem um olhar a três dimensões e que o próprio Lacombe explica desta forma em entrevista ao blog da rtve:
Tenemos la primera capa que es lo que vemos. Luego hay una segunda en la que observamos la relación entre la vida y la obra de Frida, gracias a la que comprendemos muchísimas cosas. Y una tercera donde entendemos el ámbito de referencias aztecas, mayas, taoístas… y juntando las tres tenemos una dimensión nueva de Frida. Hay tres dimensiones en el libro que son como las tres dimensiones de la pintura de Frida Kahlo. Para comprenderlo tendréis que ver el libro”.


Uma homenagem a Frida, à sua vida e obra, que é, simultaneamente, uma homenagem ao livro enquanto objecto de arte e expressão cultural. Um livro que tem, seguramente, como destinatários todos os amantes de arte e do belo, independentemente da idade. Todos os que admiram o trabalho de Frida e todos os que o desconhecem. 


A inclusão de um texto de Lacombe sobre Frida, a interacção com as escolhas e critérios que presidiram à construção do livro, a existência de uma cronologia e de um glossário são elementos preciosos para uma melhor compreensão do doloroso e fascinante universo de Kahlo. E, queremos acreditar, um factor adicional para que este livro, editado  pela Kalandraka,  possa ser visto e apreciado por várias gerações aí em casa.


Porque a arte não se explica, contempla-se. Dêem as mãos aos mais pequenos e entrem!